segunda-feira, 16 de julho de 2018

o feminismo pelos meus olhos



Falar em feminismo tem-se tornado naturalmente propício a originar discussões, tanto entre homens e mulheres, como apenas entre mulheres.
O que me parece mais complexo, no que ao feminismo diz respeito, prende-se com a dificuldade em delimitar, verdadeiramente, um conceito, uma definição.  Será sempre difícil chegar a um consenso, porque nem todas as noções vão corresponder às conceções de cada cabeça, às ideias de cada um . E muito na sombra do feminismo andará sempre o machismo, como um inevitável antónimo que, automaticamente, e fruto da consciência social, terá sempre um sentido pejorativo.

O machismo está relacionado com os "modos ou atitudes de macho". Por definição, trata-se da ideologia segundo a qual o homem domina socialmente a mulher. Não está relacionado com qualquer equipolência, com um tratamento igualitário, não diferenciado. O machismo é, como bem sabemos e somos habituados, desde pequeninos, aquela coisa má, que não deve ter lugar. Está em causa uma superioridade masculina, uma sobrevalorização das características, físicas e não só, associadas ao sexo masculino, em detrimento do sexo feminino.
Sinceramente, não deixa de ser, para mim, um conceito claramente associado aos tempos passados, em que o líder da família haveria, as mais das vezes, de ser o homem.

Por sua vez, o feminismo é um movimento ideológico que preconiza a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher ou a igualdade dos direitos dela aos dos homens. O feminismo existe porque, em algum momento da história, houve necessidade de implementar uma ideologia do tipo. Determinadas condutas, modos de tratamento, políticas ou ideais despoletaram uma reação legítima das mulheres, perante um tratamento claramente discriminatório.

Sou da opinião de que o feminismo não deve - nem pode - significar o tratamento igual, sem ressalvas, entre homens e mulheres. Digo sempre, como me ensinaram, que a igualdade se prende com um tratamento igual, quanto ao que é igual, e diferente, quanto ao que é diferente. A igualdade, perspetivada de uma forma cega, facilmente se converte numa desigualdade. Por isso, atendendo à crua e verdadeira realidade, as mulheres e os homens não são iguais.  Quer física, quer psicologicamente.

Fruto da conceção social, que inevitavelmente se viu alterada ao longo dos tempos, o homem sempre foi visto como fisicamente mais forte e psicologicamente menos sensível. Comparando-me com a maioria dos homens que conheço, trata-se de um facto irrefutável, indesmentível. Por isso mesmo, o não reclamarei, em qualquer momento da minha vida, um tratamento igualitário sem exceções, porque isso traria consequências nefastas para mim e para todas as mulheres, a muitos níveis.

Mas não nego que a existência do movimento ideológico que é o feminismo seja inteligente e, não o absolutizando, seja efetivamente necessário. Olhando para organização social própria de uma sociedade ocidental, não creio que a força do feminismo deva ser a mesma que a que esteve na base da sua criação, do seu surgimento.
A raíz do feminismo não é, propriamente, una. Por vezes, o nascimento do feminismo esteve associado, em diferentes pontos do globo, a diversas causas e objetivos. Será que qualquer movimento ligado à defesa dos direitos da mulher devem ser apelidados de "movimentos feministas", ainda que os mesmos não se tenham autointitulado como tal? Duvido da bondade desta denominação, em muitas situações. Parece-me que, hoje, um movimento que se dedique à defesa dos direitos das mulheres e prime por se manter separado daquela denominação de "movimento feminista" terá, automaticamente, mais apoiantes e será visto com outros olhos, para melhor.

Hoje, o feminismo não é descabido, mas tornou-se, em determinados casos, excessivo. Muitas conquistas foram feitas e muitos direitos foram alcançados. Tornou-se dispensável, em determinados contextos sociais, a luta por algo que foi, efetivamente, alcançado. Também não podemos desejar uma sobrevalorização da mulher, em detrimento do homem, caso contrário teremos de reconhecer ao "feminismo" um significado idêntico ao que é associado ao "machismo".
Hoje, numa sociedade como a nossa, os privilégios da mulher são crescentes, muito embora haja estudos que dizem comprovar o contrário. Mas já tive muitas provas de que as mulheres não são tão postas de lado assim. Há mulheres em cargos importantes, há orgãos de relevo em empresas maioritariamente compostos por mulheres. Há mulheres no poder. E há homens no poder também.

A mulher é um ser sensível. Naturalmente - e se calhar cada vez menos - a mulher prima pela sensibilidade, pela vocação familiar. A mulher quer trabalhar, sim, mas também quer ter uma família, cuidar dela. Provavelmente, mais do que um homem. Isto é natural. Apenas isso.
Provavelmente a mulher abdicará, as mais das vezes e com maior facilidade, de uma carreira em prol da sua realização pessoal, em termos familiares. Isto não é machismo, mas também não é feminismo.
Isto é o curso natural das coisas. E não há mal nenhum nisso.

Noutros locais do mundo é efetivamente necessário preconizar uma defesa acérrima dos direitos das mulheres. Há países em que as mulheres são alvo de um tratamento brutalmente desigual, discriminatório, tão estranhamente bárbaro e incompreensível que reclama, sim, a existência de movimentos feministas. Mas terão as mulheres desses países capacidade para, elas próprias, desenvolver uma atuação nesse sentido? Uma luta pelos seus direitos? Será que a conjuntura em que vivem permite algo do género?

E depois ponho-me a pensar: não serão as mulheres do ocidente algo injustas relativamente a este ponto? Vejo tanto alarido em torno do "free the nipple" e tão poucas (pelo menos, tendo em conta o desejável) relativamente à mutilação genital feminina. Penso que deveríamos aproveitar o facto de a nossa voz ser mais ouvida para conseguirmos, de verdade, efetivar o propósito do feminismo: um tratamento digno para a mulher, seja ela qual fora - a mulher africana, a mulher europeia, a mulher americana, a mulher de toda a parte.
Perante uma diversidade tão vasta de culturas, de organizações sociais, é crucial que lutemos, em conjunto, por uma mulher com as mesmas oportunidades em todo o mundo.

A luta do feminismo, pelos meus olhos, é esta: trazer as mulheres para um patamar idêntico, dentro do que é possível. Eliminar as discrepâncias de continente para continente, porque o verdadeiramente injusto não é uma mulher ser diferente de um homem. É uma mulher ser tão diferente de outra mulher e não se preocupar com isso.
A incrível rivalidade existente entre as mulheres funciona como um entrave ao seu próprio desenvolvimento e realização.

Parece-me fundamental eliminar muitas destas barreiras antes de, finalmente, partir para outras batalhas...

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