quarta-feira, 27 de junho de 2018

para onde fui (texto)


Viviam ali umas tantas famílias. Encafuadas num prédio antigo, branco sujo do tempo, das chuvas e do sol. Não eram só famílias. Uns quantos, solitários, daqueles que fazem de qualquer recanto a sua casa, também viviam ali. 

Iam-se encontrando, pela manhã, na escadaria. Outras vezes, à noite, enquanto uns saiam e outros entravam, choviam palavras, mas muitos silêncios. A ausência de ruído era menos anormal do que uma palavra simpática. 

Envergonhados, havia os que nada diziam. Os que vivem com o lema do "entrar mudo e sair calado". Donos do seu nariz ou demasiado inibidos de fazer alarde. Não sei ao certo. 

Percebi que fins-de-semana era diferente. O barulho já não era tão pouco, os miúdos que nem sabia que existia saiam da toca e jogavam futebol no pátio. Bolas contra a parede e a porteira aos gritos. As paredes brancas e sujas, mais sujas iam ficando. Os pais fumavam cigarros na varanda, enquanto olhavam por eles. Pareciam mais felizes que o normal, de riso fácil e ar descontraído. Nunca antes visto, por ali. 

Tinha chegado há pouco tempo. Tempo a menos para perceber que ali havia gente a sério, bem real. Daqueles que dá vontade de convidar para jantar e ficar a conversar até às tantas, de copo na mão e Redding de fundo. 
Julgava-os macambúzios, sabem? 
Estava errada. 

Era o caótico "segunda a sexta" a falar mais alto e a dar de si. Às vezes não é fácil sobreviver àqueles cinco dias. Miseráveis, cansativos e até desoladores. 
Chegou o sábado e vi-lhes os dentes. Vislumbrei abraços e avistei, por fim, acenos. Ouvi um "bom dia" e era para mim. Sorri, acenei de volta. 
Aquela, agora, era a minha casa. E não era tão má quanto pude ter pensado. 

É bom viver entre pessoas. Os robots estão ultrapassados. Mas muitos ainda não perceberam isso. 

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