sábado, 16 de dezembro de 2017

Queria ficar aqui, mas agora não

Confesso que fui, durante muito tempo, acérrima defensora do "hei de ficar em Portugal" e do "emigrar nem pensar". Ah!, e do "aqui também se pode viver bem".
Mas agora não.
Há muitas coisas que me assustam neste meu querido país.
Não sou daquelas que diz cobras e lagartos de um Portugal humilde, pequenino por ter menos metros quadrados que os outros, da boa gente e da gente boa. Das singelas sardinhas no pão, das azevias e dos coscorões, do vinho verde. Das casas pequeninas escondidas por detrás das dunas no litoral, dos prédios antigos da baixa de Lisboa, das vielas de Coimbra. 

Não tenho aversão ao meu país. Mas não quero viver de corda atada ao pescoço, todos os dias da minha vida. Não quero viver numa cidade em que as rendas não se coadunam, nem um bocadinho, ao salário médio das pessoas. Não quero dormir numa marquise porque fica demasiado caro ter um quarto. Não quero ter nojo de usar a minha própria cozinha (que nem própria é, diga-se a verdade). 
Quero ser independente, seja aqui ou não. Quero trabalhar para ter as minhas coisas. Muito esforço e frustração depois (acredito!), quero tê-las e, finalmente, usufruir delas. 
Não quero esperar pela idade da reforma para aproveitar o castelo construído, quando já não me sentir princesa. Quando houver outros a merecerem o título, ao invés de mim. 
Quero trabalhar cedo e não voltar para casa no dia seguinte. Quero ser produtiva, desunhar-me a trabalhar, mas não ser escrava do tempo e dos dias. Quero aproveitar os fins de tarde e os princípios da noite. Quero ter um sofá confortável para me sentar a trabalhar, aos fins de semana. Quero ter espaço para enfiar um sofá.  

Sou fã do meu país. Lisboa, então, tem um encanto fora de série, uma mística que me atrai, um frenesim que me entusiasma. É para lá que quero ir. Para onde mais poderia ser? 
Não me tentem enganar. Sei bem onde “esconderam” as oportunidades.  
E vou. E sinto, ainda sem ter saído do lugar, que vou acabar desiludida. 

Não quero ter uma cama na sala, não quero sentir-me desconfortável dentro do meu próprio cantinho. Não ganhei nenhuma lotaria e não devo ter essa sorte nos próximos vinte anos. 
De pés assentes no chão e cabeça a anos luz daqui, num turbilhão de sonhos por cumprir, sei que não posso querer o impossível. É preciso trabalhar com o que se tem porque a história de “fazer omeletes sem ovos” é uma grande treta. 

Mas eu não quero assim tanto. Eu não quero ficar alapada vinte e quatro horas por dia, sem fazer nenhum, à espera que me caia tudo e mais alguma coisa do céu. Eu não quero que me apareça em casa uma árvore das patacas ou a galinha dos ovos de ouro. 
Eu quero trabalhar, quero ultrapassar obstáculos e lutar contra dificuldades. Quero, acima de tudo, e para além disso, ser feliz. 

Se dissesse que “não preciso de muito”, estaria a mentir. Uma T1 por menos de 1000 euros, com uma casa de banho decente e uma cozinha que não esteja a cair de podre é, neste momento, demasiado. Uma utopia? É uma palavra bonita para descrever isto, sim. 

Lá fora não é fácil, eu sei. Não procuro facilidades. Procuro o conforto que, aqui, já não é para mim. Viva o turismo, viva as cidades “trendy”. É bom, mas não é tudo.  

Porque eu queria (muito) ficar aqui, mas agora (já) não. 

Nota: A fotografia não foi tirada por mim. 

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