segunda-feira, 27 de novembro de 2017

considerações a bordo de um boeing 737


Partimos, em direção a Bruxelas, na manhã de uma quarta-feira. Na quarta-feira da semana que passou. Uma manhã normal em Lisboa, muito embora não seja exímia conhecedora das manhãs de semana, mas mais dos sábados e domingos.
Apanhámos o metro para o aeroporto, sem saber ao certo se estávamos ou não em cima da hora. A vontade – pelo menos a minha – de chegar a Bruxelas era imensa. Vontade potenciada, claro está, pelo meu medo de andar de avião. Há dias que desejava fortemente aterrar em solo belga.
Depois de uma descolagem passada de olhos fechados, com direito a vídeo para a posteridade, confesso que a viagem foi mais tranquilo do que imaginava que seria. Diferentemente do que acontece neste momento, no voo de regresso. Escrevo-vos de um avião lotado e, para ajudar à festa, minúsculo (viva os preços baixos!). E para a festa ficar ainda mais animada, para além do barulho ensurdecedor do avião, não posso deixar de referir as crianças que gritam, com especial atenção para aquela que está constantemente a pontapear-me o encosto do assento, os passageiros super saudáveis que passam duas horas e quarenta e cinco minutos a querer esticar as pernas e passear pelo corredor (ou os pobres coitados que gastaram meio ordenado num folhado de chocolate de levar ao forno que, certamente, lhes provocou uma brutal dor de barriga e não largam a humilde casa de banho do avião).

Lembro-me de não ser assim, de gostar de andar de avião, de não ficar nervosa, de ser normal. Depois cresci mais um bocadinho e, das duas uma: ou ganhei consciência de que não é assim tão normal uma pessoa confiar cegamente numa máquina que está tão longe do chão, ou a coragem começou a escassear na minha vida (que é como quem diz que virei medricas).


Olho lá para fora e, realmente, a imagem é fantástica. O por do sol será sempre dos momentos mais bonitos do dia de alguém. Mas porquê estar tão longe do chão? Continuo stressada.


Ao meu lado, o Rui já não lê, adormeceu de livro na mão. Permitiu-me chegar à conclusão que Tolstoi é demasiado pesado para um voo, quiçá para a vida de alguém.


Este misto de sensações que vivo assusta-me. Quero voltar, porque tenho saudades de algumas coisas. Da minha mãe, dos meus amigos, da minha casa, da faculdade. Mas, por outro lado, queria ficar em Bruxelas. Acho que ninguém está preparado para escolher entre voltar ou ficar. Pelo menos, honestamente preparado. Há tanto que queremos fazer, a par de tanto que queremos manter. Há uma enorme vontade de viver mais coisas, sem perder a possibilidade de continuar a viver as mesmas. Um desabafo talvez algo descontextualizado, que depois, num outro post, terei todo o gosto em esclarecer.

Relativamente à fria cidade de Bruxelas, que me surpreendeu positivamente como nunca pensei poder surpreender, terá direito a uns quantos posts dedicados a si, ao que tem para oferecer e tudo aquilo de que me for lembrando.

Sim, estou super feliz por esta viagem. Um destino que não era, de todo, a minha primeira escolha, mas que acabou por se tornar numa das cidades europeias de que mais gostei (a lista ainda não é grande, mas já permite fazer umas quantas comparações). A melhor companhia do mundo. Sem dúvida.


Quatro dias felizes. Mais do que isso: inesquecíveis. Os primeiros.

Agora, resta-me continuar à espera da aterragem. Sessenta minutos, diz ela, pelo altifalante. Sessenta minutos de desespero, acompanhados pelas mil e quinhentas conversas paralelas que me atormentam a alma e, acima de tudo, a paciência. Ora francês, ora inglês, português e estou-farta-disto-ês. É a azáfama de Lisboa espelhada no voo do regresso a Portugal.
Até já, Raquel

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