terça-feira, 17 de outubro de 2017

eu não percebo nada de incêndios



Diferentemente do que acontece com uma grande fatia da sociedade, que nasceu entendida e muito bem ensinada acerca de toda esta polémica que gira em torno do flagelo que assola, ano sim, ano sim, o nosso país, eu não percebo nada de incêndios.

Não me passa ao lado a estranheza de como as coisas acontecem, nem sou indiferente, pelo contrário, ao sofrimento que causa a cada um dos que vê a sua vida, família e pertences em risco, até mesmo totalmente postos em causa. Jogados fora. Perdidos. 

Mas a verdade é que não sei de quem é a culpa: se do governo, se da proteção civil, se dos filhos da mãe dos incendiários, se do pai natal, se da Maria Caxuxa. Não sei e custa-me muito especular sobre o assunto, visto não querer incorrer em barbaridades ou opiniões mal formadas, muito longe daquilo que pode ser a verdade e ainda mais longe do bom senso que não quero, acima de tudo, perder de vista. 

Não deixo de pensar sobre o assunto, é certo, mas não consigo chegar a conclusões que me pareçam lógicas. Não termino estas minhas reflexões com uma tese na manga, digna de prémio. E isso assusta-me um bocadinho. 

Mas, sinceramente, não acho que seja essa a parte importante da coisa. Não me parece que arranjar culpados seja o ponto de partida ideal para a resolução do problema, senão a identificação, a fundo, do mesmo. O que me parece essencial, olhando para o que vem acontecendo – e que já não é de agora –, é perder algum tempo a apurar factos, a tentar perceber de onde é que isto vem, como é que acontece, porque é que acontece. O que é que está a falhar, o que é não corre bem, o que é que corre melhor, o que é que se pode fazer para evitar desgraças como estas. 
E depois, finalmente, tirar ilações. Querer chegar a conclusões. Querer perceber os porquês. 
Sempre ouvi dizer, de pequenina, que se deve cortar o mal pela raiz. E não creio que seja esta «caça às bruxas», esta procura desenfreada pelos culpados (sem grandes filtros...), que vá resolver, a longo prazo e de modo produtivo, o que quer que seja.

Pode acabar por ser paradoxal o facto de eu falar neste processo que, aos meus olhos, me parece o ideal para solucionar questões como estas, sem apresentar respostas e soluções. Diria mesmo que posso redundar numa utopia. Sendo certo, lá está, que há problemas para os quais nunca será encontrada solução, ou não fosse impossível trazer de volta ao mundo terreno as dezenas de pessoas que, à conta deste quase martírio, já não estão entre nós. 

Mas, como vos disse, nem eu sei o que está a falhar, nem eu sei o que corre melhor, nem tão-pouco imagino porque é que isto acontece.
Mas parece-me – e perdoem-me esta espécie de prepotência ou presunção (nem sei como lhe chamar) – não ser, para já e por agora, tarefa minha. 
Há pessoas mais responsáveis que eu. Convicta vos digo: neste campo, são, com toda a certeza, bastante mais responsáveis. Com cargos de alto gabarito, salários confortáveis no fim do mês, vidas mais ou menos complicadas, a quem cabe, antes de me caber a mim, encontrar as respostas às tão afamadas questões de que vos falei. 
São eles – e não me refiro a ninguém em particular, porque acredito que há bem mais pessoas com responsabilidades deste tipo do que aquelas que me passam pela cabeça – que têm de se chegar à frente e parar (com urgência) de fomentar esta procura sem sucesso pelo «carrasco dos incêndios».  
Haverá também, decerto, pessoas com esta responsabilidade específica.

Àqueles que têm o dever de zelar pelo bem-estar do povo, peço apenas o óbvio: que trabalhem no sentido de evitar, dentro do possível, que coisas como estas aconteçam: que pessoas se vejam encurraladas nas suas casas, onde deveriam sentir-se seguras; que outros passem por momentos de horror e de aflição nas estradas sem imaginar, sequer, qual será o final da história; que famílias fiquem sem o seu sustento porque, veja-se, o fogo deu cabo das suas terras. 

Posso estar a pedir o impossível, mas não me parece. Impossível é, de entre tantos milhões de pessoas que, provavelmente, têm pequenas quotas-partes de culpa, querer responsabilizar singular e infrutuosamente alguém.

A nossa meta pode ser essa, mas levar-nos-á a lado algum?

Da próxima vez, será diferente? Repito: assim, não me parece.  

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