sexta-feira, 18 de agosto de 2017

lembraram-se de atacar aqui ao lado

Conheço Barcelona. Conheço Cambrils. Felizmente, faço férias no fim de agosto. Felizmente, não estava lá. Mas estarei, em breve. Não minto: vou com medo, muito embora, neste momento, sejam lugares superprotegidos e, certamente, muito seguros.

Custa-me olhar para trás, lembrar as vezes em que estive, tranquilamente, naqueles sítios, sem inquietações. Sem sequer imaginar que algo assim pudesse acontecer ali, onde centenas de pessoas caminham lado a lado, sem se conhecerem, cada qual com o seu sorriso, a sua habitual descontração. Tiram selfies, compram souvenirs, bebem cervejas, comem o que bem lhes apetece, correm porque querem, saltam porque podem.

Mas não deixo de me considerar uma sortuda por ter podido aproveitar cada lugar da melhor forma, sem medos, sem hesitações. Por poder ter-me sentado numa esplanada despreocupada e sossegada, passeado à beira-mar sem sentir que era minha obrigação estar atenta a qualquer movimentação estranha ou a barulhos fora do comum. 

Agora já não é assim e não será assim durante uns tempos. Tanto eu, como qualquer pessoa que por lá se passeie, não estará sossegada e calma como dantes. Especialmente atentos, enquanto seres humanos que somos, ser-nos-á impossível por de lado o clima de insegurança que, inevitavelmente, se fará sentir.

Por muito que os governos de cada Estado se esforcem por repor a normalidade do dia-a-dia, por muito que façam por que a paz volte a ser o status quo dito normal e a sensação de liberdade de cada um esteja, como deve ser, nos píncaros, dificilmente se apagará da cabeça de cada um cada acontecimento visto quase em direto na televisão, acompanhado minuto a minuto na internet. E mais complicado ainda será conseguir ignorar que não estamos livres em lado algum. Numa rua cheia de gente, numa outra mais tranquila, com menos movimento. Já vi de tudo.

Quando estive em Paris, depois dos atentados de novembro, depois de toda a confusão do Charlie Hebdo, resolvi visitar grande parte dos locais dos atentados. E foi aí que percebi e, ao mesmo tempo, deixei de perceber o propósito de cada ponto escolhido para lançar o pânico e instalar a consternação. Passei de uma avenida sem fim, com carros de um lado, carros do outro, edifícios enormes e cafés, farmácias, lojas e um sem-número de serviços, para um cruzamento pitoresco, pequenino, com uma esplanada a um canto, poucas pessoas e um silêncio atrativo e estranhamente bom.

Não percebo se querem atingir tantas pessoas quanto possível, fazer-nos ter medo dos aglomerados, das multidões, ou se pretendem mostrar-nos que nem os locais mais recônditos e desconhecidos lhes passam ao lado. Querem, à força, consciencializar-nos da sua quase omnipresença e da falta de amor próprio e para com os outros. Eles não têm medo de ser cruéis, não têm medo de abalar a paz, não temem a morte nem a dor. 

Nós vemos tudo de forma diferente. Culturas... Nós prezamos coisas que não lhes são queridas, não compreendemos porque pensam como pensam, nem eles entendem porque é que somos como somos. A diferença é uma constante da nossa vida e, claramente, ainda não sabemos lidar com ela. Provavelmente, nunca saberemos.

É verdade que a nossa liberdade, ninguém nos tira. Mas há quem queira, a todo o custo, sem medo, limitá-la e travá-la. São eles.
E a imprevisibilidade de tudo isto é o que mais me choca e entristece. Agora temos medo, mas a pouco e pouco deixamo-nos tranquilizar. É assim que tem de ser e é assim que nos pedem que seja. Que não nos deixemos ficar em casa. Que façamos frente ao pânico e enveredemos pelo caminho da coragem e da indiferença.

Mas depois, quando menos se espera, o “monstro” volta a atacar.
E repete-se tudo outra vez.
Sem fim à vista, até quando terá de ser assim?

Espero que os milhões de sonhos de conhecer o mundo que há por aí não sejam destruídos pelo medo, pelo terror, pela ameaça quase constante, ao virar da esquina. “Desfrutar” tem de ser a palavra de ordem em qualquer lugar. Não faz sentido que seja de outra maneira. Esta é a realidade que sempre conhecemos e não é justo vê-la a distorcer-se a este ritmo alucinante e sem aviso prévio. 

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