sábado, 29 de julho de 2017

revolta (sem sucesso) contra o contraproducente


Já não sei onde vai o início de junho. Lembro-me de olhar para esses primeiros dias como difíceis. Perspetivei a sua chegada como um mal, mas um senhor mal. «Vêm para me lixar a vida.». Dito e feito. Fim de julho e ainda aqui estou. 

Sinto-me quase desprovida de miolos, neurónios, como lhes queiram chamar. Cansada, quase doutorada em arrastar-me por aí todas as santas manhãs. De volta de folhas que não me lembro de ter mandado imprimir, de canetas que acho que nem são minhas, com a parte traseira do meu corpo quase quadrada visto que as horas sentada são bem menos do que aquelas que gostava de passar a abanar-me loucamente ao som do Despacito. Agora pensem: é preciso alguém estar perto de desesperado para querer, mais do que tudo, trocar a cadeira por uma música que já quase vomita por todo o lado.  

É assim o meu estado atual. O meu e o de muitos pobres coitados que conheço, que, como eu, se queixam dia sim, dia sim, hora sim, hora sim, minuto sim, minuto não. Às vezes têm de parar de se queixar para ler uma ou outra frase. Outras vezes precisam de usar a casa de banho, comer qualquer coisa, beber água. Sei lá! Essas coisas que o comum dos mortais ainda precisa de fazer. 

Mas nesta mente atulhada de pensamentos negativos, de contagens decrescentes, de vontades assustadoramente gigantescas de partir rumo a uma praia, mesmo sendo a pior praia do mundo, nunca param de passar imagens, em loop, de livros que deveríamos estar a ler, de tempo que deveríamos estar a gastar de volta de folhas e folhinhas. 

De facto, enganaram-se nisto tudo. Só pode. Haverá coisa menos produtiva do que pôr um gajo qualquer, um cão, um gato ou até um urso polar de volta de uma carrada de livros quando, lá fora, o sol raia, o mar até está calminho e apetece andar, feliz e contente, por aí? (Talvez o urso polar não faça sentido...) Mas quem é que ousou sequer pensar que faria sentido? Quem é que, na sua ingenuidade, ainda acredita que este sofrimento todo leva ao sacrifício positivo, àquela coisa do «aguenta firme, até ao fim»? 

Uma pessoa quer é ver a faculdade para trás das costas. Os livros queimados e atirados ao inferno. Qual mar, qual quê? O mar é para nós. Para nos pormos lá de molho, para afogarmos as mágoas dos últimos meses. 
Sacrifícios o caraças. Isto é um «salve-se-quem-puder» misturado com a seleção natural. 

Cheguei até aqui. Maravilhoso. Vou só chorar um pouco e, antecipadamente, pôr uma velinha pelo ano que vem. Afinal, tudo será igual. De nada vale a revolta contra o que já é contra... contraproducente. Resta-nos andar aqui a bater com a cabeça nas paredes e a sonhar com a areia enfiada em todo o lado. Até este cenário medonho parece bom. É assim que estamos. 

Contudo, chega a valer a pena quando as coisas teimam em correr bem. 

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