segunda-feira, 10 de julho de 2017

coimbra


Nasci aqui, de costas para o Mondego. De frente para dias felizes, noites intermináveis e tardes de sol. Quando pouco sabia sobre o que quer que fosse, fui começando a conhecer as ruas deste sítio, que sempre vi como meu, como parte de mim. A minha cidade querida, com quem partilhei quase tudo, até aqui. Dos defeitos, só eu posso falar. Ai de quem ouse dela dizer mal.

Defensora e amiga de cada estátua, da torre da universidade e dos arcos do jardim. Que ninguém se queixe das pedras desalinhadas das ruas da alta. Nunca o desalinhado fez tanto sentido. 
E se alguém se quiser queixar do ruído da cabra, que seja eu. Que não consigo ler ao som do toque matutino.

Apaixonada pela magia das guitarras, pelas capas ao luar, por Coimbra, pelos seus amores. Pelos doutores, que felizes se vão. Pelas fitas, esvoaçantes, loucas, na despedida.
Pelas paredes que tudo ouvem e pelas janelas que tanto veem. Pelos amigos que aqui nascem, pelas histórias que se escrevem, pelas gargalhadas perdidas por aí, pelas lágrimas de medo, de inquietação e de saudade.  

Pelo tempo que passou e pelo que há-de vir. Que de olhos fechados, tristes de alegria, eu seja sempre capaz de recordar todas as coisas. Não faz sentido poder voltar atrás, porque o que passou, lá vai. Mas valha-me a memória para poder continuar a ser feliz.  


Que Coimbra nunca se apague em mim, porque parte deste desenho que sou eu, foi ela que o fez, sem lamúrias nem medo de errar.  


Foi a mim que as pedras da calçada ensinaram
Mais do que jamais pensei poder
Esta Coimbra ensinar-me neste tempo
De tristezas e amores que ousei viver

E fui pedindo ao tempo que parasse
Que não corresse como ele vai correndo
O Mondego, que inquieto existe 
Nos corações errantes, que aqui e ali, se vão perdendo

E a saudade que sinto não se vai 
Não para de crescer dentro de mim
Cidade minha, que sozinha ficarás
Sem me teres perto, para poder sonhar aqui 
E conto os dias para poder voltar
Para ser tua aprendiz por mais um dia 
Porque um amor como este não se esvai 
O amor de um coração que, tímido, ardia 

E pôs-me os olhos negros embargados
Pensar nos que te chegam, tão sozinhos 
Almas ingénuas, tão desamparados 
Que no fim partem, sabendo todos os caminhos 

A medo e sem saber para onde vão
Na incessante busca pelo incerto
Com o Choupal e a velha Sé no coração
Sonham Coimbra, nossa cidade, um livro aberto 

Um quase adeus ao penúltimo ano. Que venha o últmo. 

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